Pesquisas do CCD-CROP-IAC avançam em edição genética aplicada em café, cana-de-açúcar e citros

O que é edição genética?

A edição gênica é uma técnica da biotecnologia que permite modificar genes específicos do DNA de um organismo de forma precisa atuando diretamente no gene de interesse. Essa tecnologia permite que pesquisadores alterem características específicas, realizando modificações mínimas no genoma de um organismo. 

 

Entre muitas aplicações, essa técnica oferece uma forma de investigar os genes de maneira detalhada, ajudando a entender os processos biológicos que determinam características essenciais dos organismos.

Representação do DNA em 3D
Um dos principais exemplos é o CRISPR, a tecnologia de edição genética mais utilizada atualmente, especialmente por seu custo-benefício e versatilidade. Conhecida como uma “tesoura molecular”, ela permite modificar genes específicos sem afetar o restante do genoma, possibilitando o ajuste das funções gênicas de forma controlada e eficiente.

Por que essa estratégia é importante?

Alterações genéticas fazem parte da história natural dos seres vivos. Ao longo do tempo, mutações surgem de forma espontânea no DNA e dão origem à diversidade genética observada nas populações naturais. Essa variabilidade é fundamental para a ciência e para a agricultura, pois é a partir dela que plantas se adaptam a diferentes ambientes, desenvolvem resistência a pragas e doenças e apresentam características agronômicas que podem ser selecionadas e aprimoradas ao longo das gerações.

Grande parte das cultivares utilizadas atualmente na agricultura é resultado justamente da identificação, seleção e combinação dessas variações genéticas naturais. O melhoramento genético tradicional se baseia nesse princípio: explorar a diversidade existente para desenvolver plantas mais produtivas, estáveis e adaptadas às necessidades do campo. A edição genética se insere nesse mesmo contexto, ampliando a capacidade da ciência de compreender e acessar essa diversidade de forma mais direcionada.

Enquanto, na natureza, as alterações genéticas ocorrem de maneira lenta e aleatória ao longo de muitas gerações, o uso do CRISPR permite atuar diretamente no gene de interesse. Essa precisão e agilidade aceleram a compreensão dos mecanismos biológicos, tornando o CRISPR uma ferramenta estratégica para a pesquisa científica e ampliando o potencial de inovação e desenvolvimento de soluções para a agricultura moderna.

Por que a edição genética é importante para a agricultura?

A edição gênica tem se tornado uma ferramenta importante para a agricultura, pois permite estudar de forma precisa os genes que controlam características importantes das plantas. Com essa tecnologia, os cientistas conseguem entender melhor como as plantas reagem a doenças, pragas e condições difíceis do ambiente, aumentando nosso conhecimento sobre como elas funcionam.

Esse entendimento é especialmente relevante em um cenário marcado pelas mudanças climáticas, que impõem novos desafios à produção de alimentos. Ao possibilitar a investigação rápida e controlada de genes ligados à adaptação das plantas, a edição gênica contribui para a construção de sistemas agrícolas mais preparados para lidar com variações ambientais e produtivas.

Principais aplicações da edição genética na agricultura.

Na prática, a edição genética é usada para investigar genes relacionados à resistência a doenças e pragas, ajudando a reduzir perdas e a entender melhor todo o funcionamento fisiológico da planta, como a ativação de defesas naturais, a produção de enzimas e a regulação de hormônios que controlam o crescimento e a resposta a estresses.

Outra área de aplicação é o estudo de genes ligados ao crescimento, ao desenvolvimento e à qualidade dos produtos agrícolas. Nesse caso, a edição gênica permite analisar e modificar genes que regulam processos moleculares essenciais, como a fotossíntese, a absorção de nutrientes, a regulação hídrica e a síntese de compostos bioativos.

Com isso, os cientistas podem compreender como o genoma “interage” com o ambiente e como esses mecanismos influenciam o desempenho e a adaptação das plantas, apoiando a criação de culturas mais produtivas, resistentes e adaptadas às condições locais.

Dessa forma, a edição genética se consolida como uma tecnologia-chave da agricultura moderna, unindo ciência, inovação e sustentabilidade para enfrentar os desafios atuais e futuros do setor.

A edição genética no CCD-CROP-IAC

No CCD-CROP-IAC, as ferramentas de edição gênica são utilizadas para desenvolver tecnologias específicas para as culturas de cana-de-açúcar, café e citros. Um dos primeiros artigos publicados pelos pesquisadores do projeto foi uma revisão científica que discute os fundamentos e o potencial da tecnologia CRISPR aplicada a essas culturas. Esse embasamento orienta a definição das estratégias mais adequadas de edição gênica para cada espécie.

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Como parte das atividades do projeto, os pesquisadores desenvolveram e padronizaram tecnologias CRISPR e protocolos específicos para a edição genética de citros, café e cana-de-açúcar. Nessa etapa, são adotadas diferentes estratégias experimentais para validar a eficiência da edição gênica, e já foram publicados artigos que demonstram o domínio dessas tecnologias nas culturas trabalhadas pelo CCD-CROP-IAC.

Agora, os pesquisadores buscam desenvolver e selecionar plantas geneticamente editadas para diferentes alvos de interesse. Realizar avaliações em laboratório e em casa de vegetação para caracterização dos efeitos das edições e no atendimento às exigências técnicas e regulatórias. Esse conjunto de estudos e avaliações é fundamental para garantir a segurança, a estabilidade e a confiabilidade da tecnologia, criando as bases para futuras aplicações no campo e para os processos regulatórios associados à edição genética.

Cana-de-açúcar: Avanços na resposta à seca e na produção de biomassa

Nas pesquisas com cana-de-açúcar, o foco está em genes que controlam a produção de biomassa e a resiliência hídrica, características essenciais para manter a produtividade mesmo diante de secas e variações climáticas. 

Para isso, muitas vezes os estudos começam em plantas modelo, como o arroz, que possuem genomas mais simples e ciclos de vida mais curtos. Essa estratégia permite entender rapidamente o papel de genes específicos antes de aplicá-los em uma cultura complexa como a cana, evitando o longo tempo que processos naturais demoraram para revelar os mesmos resultados.

Alguns resultados dessa tecnologia

  • Resposta à seca: estudos com arroz mostraram que a alteração de genes ligados à fotossíntese pode reduzir a produção de energia da planta mesmo quando há água disponível. Isso indica que resistir à seca não depende apenas de água, mas do bom funcionamento dos processos internos da planta.
  • Melhor aproveitamento da biomassa da cana: pesquisas com cana-de-açúcar mostraram que a modificação genética pode aumentar em até 63% a eficiência de conversão da celulose em açúcares fermentáveis, etapa essencial para a produção de etanol de segunda geração, sem comprometer a produção de açúcar nos colmos.

Citros: Estratégias para entender e enfrentar o greening

Nos Citros, a edição gênica tem um papel fundamental no estudo de genes envolvidos na resposta das plantas a doenças, como o huanglongbing (HLB) ou mais conhecida como Greening, considerado um dos maiores desafios da citricultura mundial. Por meio de abordagens genômicas integradas ao uso do CRISPR, os pesquisadores conseguem identificar e modificar genes relacionados à interação entre a planta e o patógeno. Isso permite compreender, de forma precisa, quais mecanismos tornam a planta mais suscetível ou mais tolerante à doença.

Os pesquisadores do CCD-CROP-IAC alcançaram avanços importantes no uso do CRISPR em citros, com o desenvolvimento da tecnologia conhecida como “transgene-free”, que permite realizar a edição genética em plantas perenes, como a laranja, sem a inserção de DNA de outras espécies, gerando alterações semelhantes às mutações naturais que já ocorrem nas plantas.

Esse avanço permite acelerar a resposta a problemas enfrentados no campo, como o greening e outras ameaças emergentes. Entre os principais resultados e benefícios da tecnologia estão maior precisão e previsibilidade na edição gênica, redução do tempo necessário para o desenvolvimento de novas variedades, menor custo em comparação às plantas transgênicas e um processo regulatório mais simples. Na prática, isso contribui para o desenvolvimento de cultivos mais seguros, produtivos e preparados para os desafios da citricultura.

Café: Caminhos para reduzir a cafeína de forma natural

Em café, as pesquisas  utilizam a edição gênica para estudar genes ligados à produção de cafeína e apoiar o desenvolvimento de variedades naturalmente com baixo teor de cafeína. Com essa biotecnologia, é possível reduzir a síntese de cafeína diretamente na planta, por meio de alterações precisas no DNA, sem a necessidade de processos químicos.

No V Workshop, os pesquisadores destacaram os avanços no desenvolvimento de cafés com baixo teor de cafeína e alta qualidade de bebida, obtidos a partir do uso de estratégias baseadas no conhecimento de edição genética . Esses resultados refletem anos de pesquisa e apontam para a possibilidade de desenvolver variedades com características mais previsíveis e alinhadas às demandas da cafeicultura atual.

Dessa forma, o CCD-CROP-IAC não apenas contribui para o avanço do conhecimento sobre como os genes determinam características importantes nas plantas, mas também estabelece bases científicas que podem apoiar o desenvolvimento de soluções práticas e inovadoras para tornar a agricultura tropical mais resiliente, produtiva e sustentável.

Referências:

– KHALID; MAHAS, A.; MAHFOUZ, M. Plant Genome Engineering for Targeted Improvement of Crop Traits. Frontiers in Plant Science, v. 10, p. 114–114, 12 fev. 2019.

Modificação genética: CRISPR – Iberdrola. Disponível em: https://www.iberdrola.com/quem-somos/nosso-modelo-inovacao/modificacao-genetica-crispr

-CROPLIFE. Edição gênica sempre esteve presente na agricultura – CropLife. Disponível em: https://croplifebrasil.org/edicao-genica-sempre-esteve-presente-na-agricultura/ 

‌Novas Tecnologias – Edição Gênica. Disponível em: https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/sanidade-animal-e-vegetal/sanidade-vegetal/biotecnologia-agricola-e-biosseguranca/novas-tecnologias-edicao-genica

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