Pesquisa, parceria e impacto: os caminhos do CCD-CROP-IAC

O CCD-CROP-IAC aposta na integração entre ciência, setor produtivo e políticas públicas para transformar pesquisas em soluções aplicáveis. O projeto desenvolve estudos em diferentes frentes, que vão do melhoramento genético e da biotecnologia a práticas de manejo sustentável voltadas às culturas de citros, café e cana-de-açúcar.

Para compreender melhor como esse processo de desenvolvimento acontece na prática, entrevistamos a Dra. Mariângela Cristofani-Yaly, coordenadora do CCD-CROP-IAC.

A seguir, a Dra. Mariângela compartilha sua visão sobre o funcionamento do projeto, os resultados já alcançados e os caminhos para o futuro da inovação no agro.

  1. O edital que deu origem ao CCD-CROP-IAC foi inovador ao priorizar o modelo de tríplice hélice, integrando instituições públicas, empresas e governo. Na sua visão, quais são os principais benefícios desse tipo de estrutura para acelerar a inovação e gerar impacto real no agro?

 

O CCD-CROP-IAC foi estruturado a partir de um edital inovador, que colocou no centro do projeto a integração entre instituições públicas de pesquisa, empresas e governo. Esse arranjo institucional busca acelerar a inovação e ampliar o impacto das pesquisas no setor agropecuário.

Esse modelo permitiu integrar o conhecimento científico das universidades e institutos de pesquisa à experiência das empresas, que conhecem o mercado e têm capacidade de escalar tecnologias, além do papel do governo na formulação de políticas públicas e na regulação. Essa articulação direciona a pesquisa para problemas reais do setor produtivo e da sociedade, tornando o processo de inovação mais eficiente e com maior impacto no agronegócio e também para sociedade.

Ao unir ciência, mercado e políticas públicas, o CCD-CROP-IAC cria um ambiente favorável para que a pesquisa avance com propósito claro e aplicação prática.

  1. Nos últimos anos, o CCD-CROP-IAC avançou em várias frentes de pesquisa. Na sua avaliação, quais são os resultados mais relevantes alcançados até agora? 

 

Ao longo dos últimos anos, o CCD-CROP-IAC consolidou avanços que envolvem não apenas tecnologias prontas, mas também processos, protocolos e formação de pessoas, elementos essenciais para sustentar a inovação no longo prazo.

Destaco três pontos importantes:

 

  • Validação e regularização de materiais genéticos: variedades e porta-enxertos que vinham sendo desenvolvidos há cerca de 20 anos puderam ser finalizados, regularizados junto ao Ministério da Agricultura e à Coordenadoria de Defesa Agropecuária (CDA), e disponibilizados aos citricultores. Esse processo incluiu a implantação de jardins clonais para produção de sementes.


  • Padronização de protocolos laboratoriais: um dos maiores desafios do projeto foi estabelecer e padronizar, nos laboratórios de citros, café e cana-de-açúcar, a tecnologia de edição gênica por CRISPR, ainda recente no país.


  • Desenvolvimento de competências técnicas: a consolidação dessa tecnologia foi possível graças à capacitação de estudantes, incluindo aqueles que realizaram estágios no exterior por meio da Bolsa de Estágio de Pesquisa no Exterior (BEPE/FAPESP), que permitiu a aquisição de conhecimento técnico avançado e sua implementação nos laboratórios do projeto.

De forma geral, considero que um dos principais avanços do CCD-CROP-IAC foi justamente a estruturação e consolidação da tecnologia de edição gênica nos três laboratórios, criando uma base sólida para o desenvolvimento de futuras inovações. Além disso, esses resultados mostram que o impacto do projeto está tanto na entrega de tecnologias quanto na construção de capacidades científicas duradouras.

  1. As empresas parceiras desempenham um papel essencial no modelo do CCD-CROP-IAC. Como essa colaboração tem fortalecido o projeto?

 

No modelo do CCD-CROP-IAC, as empresas não são apenas apoiadoras, mas agentes ativos no processo de inovação, contribuindo para orientar a pesquisa a partir das demandas do campo. Elas contribuem diretamente para a avaliação das tecnologias desenvolvidas e para o ajuste entre teoria e prática, ajudando a orientar o desenvolvimento de soluções que estejam alinhadas às necessidades reais dos produtores. Essa aproximação fortalece o diálogo entre pesquisa e mercado, reduzindo a distância entre o laboratório e a adoção no campo.

Além de fortalecer a pesquisa, essa aproximação gera benefícios concretos para as empresas. Que, ao integrar o projeto, passam a atuar diretamente na construção das soluções, acompanhando o desenvolvimento tecnológico desde as etapas iniciais da pesquisa. Esse modelo gera benefícios concretos para as empresas, como acesso antecipado a inovações, redução de riscos tecnológicos,  fortalecem sua estratégia ESG ao apoiar ciência pública de impacto e se posicionam de forma diferenciada frente aos desafios de sustentabilidade, produtividade e adaptação às mudanças climáticas no agro.

  1. De que forma as tecnologias desenvolvidas pelo CCD-CROP-IAC contribuem para uma produção agrícola mais sustentável e alinhada às demandas da adaptação às mudanças climáticas?

 

A adaptação às mudanças climáticas é um dos grandes desafios da agricultura contemporânea. Nesse contexto, o CCD-CROP-IAC atua de forma integrada para desenvolver soluções que aumentem a resiliência dos sistemas produtivos. Buscamos desenvolver tecnologias que contribuam para uma produção agrícola mais sustentável por meio de diferentes estratégias integradas:

 

  • Melhoramento genético: desenvolvimento de variedades obtidas por melhoramento convencional, plantas transgênicas e plantas editadas geneticamente, com maior tolerância a estresses bióticos (pragas e doenças) e abióticos (altas temperaturas e déficit hídrico).


  • Redução do uso de insumos: plantas mais tolerantes permitem diminuir o uso de defensivos agrícolas e a demanda por irrigação, reduzindo custos de produção e impactos ambientais.


  • Manejo conservacionista: adoção de práticas de manejo de plantas daninhas que favorecem a microbiota do solo, reduzem a perda de água e contribuem para o equilíbrio do sistema produtivo.


  • Eficiência produtiva: avaliação de novos espaçamentos de plantio, uso de porta-enxertos mais ananicantes, técnicas mais eficientes de aplicação de insumos e recomendações nutricionais específicas, visando altas produtividades com menor volume de recursos.

Dessa forma, o CCD-CROP-IAC entrega pacotes tecnológicos que integram genética, manejo e sustentabilidade, gerando soluções aplicáveis para uma produção agrícola mais eficiente e resiliente. Ao reunir conhecimento científico validado e práticas consolidadas, essas tecnologias geram valor direto para produtores e empresas, ao mesmo tempo em que fortalecem e valorizam a pesquisa desenvolvida pelo Instituto Agronômico.

  1. O que torna fundamental a continuidade do CCD-CROP-IAC? E quais áreas ou tecnologias emergentes você enxerga como prioritárias para uma eventual próxima fase do projeto?

 

A continuidade do projeto é vista como essencial para consolidar avanços já alcançados e ampliar o impacto das tecnologias desenvolvidas, especialmente em escala de campo. Queremos avançar na edição gênica, com a identificação de novos alvos e o aumento da eficiência dessa tecnologia já estabelecida nos laboratórios de citros, café e cana-de-açúcar, além de viabilizar a avaliação das plantas em campo. Outro ponto estratégico é o escalonamento da produção de porta-enxertos desenvolvidos pelo melhoramento convencional, permitindo sua adoção pelos produtores. 

De forma integrada, o projeto busca entregar não apenas novas variedades, mas um pacote tecnológico que inclua cultivo adensado, manejo nutricional eficiente e práticas conservacionistas, promovendo uma produção agrícola mais sustentável. Essa perspectiva reforça o CCD-CROP-IAC como um projeto estruturante, com visão de longo prazo para a agricultura brasileira.

A entrevista reforça o papel do CCD-CROP-IAC como um projeto estruturante, capaz de conectar ciência, inovação e sustentabilidade em uma visão de longo prazo para a produção sustentável de citros, café e cana-de-açúcar.

Sobre a Dra. Mariângela Cristofani-Yaly

A Profa. Dra. Mariângela Cristofani-Yaly é pesquisadora científica do Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e referência na área de melhoramento genético de citros. É graduada em Engenharia Agronômica pela Universidade de São Paulo, onde também concluiu o mestrado e o doutorado em Agronomia, com ênfase em Genética e Melhoramento de Plantas. Atualmente, coordena os grupos de pesquisa em Melhoramento e Mapeamento Genético de Citros no Centro de Citricultura Sylvio Moreira, vinculado ao IAC. Também é professora e orientadora do programa de pós-graduação em Produção Vegetal e Bioprocessos Associados da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Ao longo da carreira, coordenou diversos projetos de pesquisa financiados pela FAPESP e pelo CNPq, incluindo um projeto temático, e participou de importantes iniciativas nacionais e internacionais na área de genômica vegetal. É coordenadora do projeto CCD-CROP-IAC, que desenvolve estratégias biotecnológicas e genômicas voltadas à qualidade, produtividade e manejo sustentável de citros, café e cana-de-açúcar no estado de São Paulo.

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